A edição de dezembro de 2025 do boletim mensal do CEMADEN sobre o Sistema Cantareira aponta que o período chuvoso, que se estende até o final do verão, em março, pode não ser suficiente para recuperar os reservatórios. O principal sistema de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo segue em situação grave de escassez hídrica.
No final de dezembro, o sistema operava com 20,2% do volume útil, patamar pior que o observado no último dia de 2013, quando o Cantareira registrava 27,3% e antecedia a crise hídrica de 2014/2015. Em comparação com 2024, o cenário é ainda mais alarmante: no mesmo período do ano passado, o sistema apresentava cerca de 50% de armazenamento.
As chuvas abaixo da média histórica são um fator crucial por trás desse cenário. Em dezembro, choveu 141 mm, o que representa apenas 68% da média histórica de 207 mm para o mês. Já no trimestre de abertura da estação chuvosa — entre outubro e dezembro — foram registrados 365 mm, equivalentes a 75% da média histórica do período, que é de 484 mm.
Os dados hidrológicos mostram que o sistema não está conseguindo se recuperar mesmo em um momento do ano em que tradicionalmente ocorre sua recarga. Os rios que alimentam os reservatórios também apresentaram vazões muito abaixo do padrão histórico.
Informações da SABESP e da ANA, utilizadas como base do relatório do CEMADEN, indicam que a vazão afluente às represas do Sistema Cantareira foi de aproximadamente 16 m³/s no último trimestre de 2025 — cerca de 46% da média histórica do período, que é de 35 m³/s.
O Sistema Cantareira encontra-se classificado em seca hidrológica com intensidade variando entre excepcional e extrema, de acordo com o Índice de Seca Bivariado, que combina dados de precipitação e vazão. O indicador reforça que não se trata de um problema pontual, mas de um déficit hídrico acumulado ao longo dos últimos meses.
Projeções para o início de 2026
As projeções para o primeiro trimestre de 2026 — entre janeiro e março — não são animadoras:
- No cenário com chuvas acima da média histórica, o sistema pode atingir 53% do volume útil, enquadrando-se na faixa de atenção.
- Com chuvas dentro da média histórica, o armazenamento pode chegar a cerca de 39%, ainda em situação de alerta.
- Se as chuvas ficarem 25% abaixo da média, o volume pode cair para 28%.
- Em um cenário ainda mais seco, com 50% menos chuva, o Cantareira pode permanecer próximo de 20%, mantendo-se na faixa de restrição.
Mesmo nos cenários mais otimistas, não há expectativa de retorno à normalidade até o fim da atual estação chuvosa.
SABESP reduz pressão noturna para economizar água
Cumprindo uma deliberação da Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos de São Paulo), a SABESP vem reduzindo a pressão noturna nas tubulações de água da Região Metropolitana de São Paulo desde 22 de setembro de 2025. A redução ocorre durante 10 horas, entre 19h e 5h do dia seguinte, com o objetivo de diminuir perdas e preservar os níveis dos reservatórios.
As medidas tiveram início em 27 de agosto de 2025, inicialmente com duração de 8 horas. Nos primeiros 21 dias, a economia foi de 7,26 bilhões de litros de água, volume suficiente para abastecer cerca de 800 mil pessoas por um mês.
Entretanto, o impacto da redução de pressão não é uniforme. Regiões mais altas e famílias que não possuem caixa d’água sofrem mais intensamente com a falta de abastecimento durante a noite e madrugada.
Onda de calor agrava a crise hídrica
Os últimos dias de 2025 também foram marcados pela primeira onda de calor do verão 2025/2026, iniciada na semana do Natal e estendendo-se até o Ano Novo. O evento quebrou recordes de temperatura e provocou um aumento de cerca de 60% no consumo de água na Região Metropolitana de São Paulo, agravando ainda mais a pressão sobre um sistema já fragilizado.
